terça-feira, 27 de setembro de 2011

A Guerra dos Calendários em Israel

A Guerra dos Calendários em Israel
 Por Shau'l Bentsion
A Disputa entre Seis Calendários
Uma vez que vimos que o calendário judaico atual está muito longe de ser o calendário bíblico, nos resta analisarmos os demais calendários das seitas judaicas históricas, para verificarmos que calendário é plenamente bíblico em sua essência, e corresponde ao calendário originalmente adotado por Israel.
Uma análise mais próxima da história da disputa pelo poder entre as seitas judaicas revelará que os entraves calêndricos estavam no cerne de muitas dessas disputas. Afinal, deter o controle sobre o calendário significava exercer um domínio sobre toda a vida religiosa do povo – ou pelo menos, da parte do povo que seguisse o grupo em questão.
É por isso que temos nada mais nada menos do que 6 calendários adotados historicamente pelo povo de Israel!
A saber, são os seguintes:
Calendário Samaritano
Calendário Fariseu/Mishnáico
Calendário Essênio/Saduceu
Calendário “Proto-Hillel 2” (*)
Calendário de Hillel 2
Calendário Caraíta
(*) Nome arbitrário atribuído ao período em que o calendário fariseu começou a ser calculado, mas que as regras ainda não eram plenamente adotadas, e que ainda havia alguma observação dos astros.

Sabe-se que pelo menos 3 desses calendários conviveram ao mesmo tempo: O Calendário Samaritano, o Calendário Fariseu/Mishnáico e o Calendário Essênio/Saduceu. Isto indica que cada vez que um grupo ganhava uma determinada proeminência, adotava uma postura revisionista com relação ao calendário, para assegurar sua hegemonia de poder.
Isso pôde ser visto até bem pouco tempo atrás, historicamente falando.
Por exemplo, Shabatai Tsvi, um falso messias que surgiu no século XVII, tentou, segundo a Enciclopédia Judaica: “O primeiro passo em direção à desintegração do Judaísmo tradicional foi à mudança do jejum no décimo dia de Tevet para um dia de festa e júbilo.” Nesse caso em particular, o jejum de Tevet não é uma ordenança bíblica, mas ilustra bem a mentalidade dos líderes de que aquele que controlasse o calendário, controlaria a vida religiosa do povo e, consequentemente, o próprio povo.

Evidentemente que, para nós, o mais importante não são as contendas entre as seitas judaicas, mas sim o calendário bíblico propriamente dito.
Contudo, é importante conhecer a história para entendermos o porquê de termos chegado onde chegamos.
Em breve, veremos que apesar de ser plenamente possível chegarmos a uma conclusão sem qualquer controvérsia acerca do calendário, não é tarefa trivial, e demanda não apenas um esforço de estudarmos cada nuance, como uma grande atenção para as sutilezas do texto bíblico. Como veremos mais adiante, a principal dificuldade está no fato de que a Torá não delineia instruções específicas sobre o calendário, partindo do pressuposto de que o mesmo já fosse familiar aos seus leitores. Veremos também o porquê disso mais adiante.
O importante de enfatizar aqui é que justamente a ausência de tais instruções de forma clara e sistematizada é que permitiu o surgimento dessas diferentes vertentes.

Voltando ao Segundo Templo
Mas antes de adentrarmos na questão dos calendários propriamente ditos, uma pergunta é importantíssima para nós: Que calendário Yeshua seguiu?
Certamente Melech HaMashiach (o Rei Messias) seguiu adequadamente o calendário bíblico.
Na realidade, o NT nos diz algumas coisas acerca da controvérsia dos calendários, mas são informações bastante espaçadas e passíveis de diferentes interpretações. Porém, um fato permanece para nós: Há algum indício histórico de que havia mais de um calendário nos tempos de Yeshua? Tal pergunta se faz relevante porque se não houver qualquer evidência histórica de uma controvérsia nos tempos de Yeshua, isto é, se a controvérsia for posterior a Yeshua, ou muito anterior a Ele, então poderemos concluir com relativa segurança que Yeshua seguia o calendário do sistema religioso do segundo Beit HaMikdash (Templo).
Mas, se a história nos revelar que durante o período do segundo Beit HaMikdash (Templo), havia mais de um calendário vigente, então de fato carece estudarmos os calendários que se apresentam, e analisarmos qual de fato é o calendário bíblico. Para isso, analisemos o principal motivo da disputa calêndrica mais acirrada da história do Judaísmo.

Antíoco Epifânio e a Mudança do Calendário
Em sua obra “New Testament Chronology”, Kenneth F. Doig relata o motivo da principal controvérsia calêndrica, entre fariseus e saduceus/essênios:
“Depois que Alexandre o Grande morreu em 323 AC, seus generais dividiram o império. Ptolomeu tomou o Egito e trouxe a Judéia sob o seu controle. Os descendentes de Seleukos Nikator governaram a Síria, e finalmente obtiveram o controle da Judéia em 198 AC. O governante selêucida Antíoco IV Epifânio estava determinado a helenizar seus territórios, e tornou o Judaísmo ilegal. Logo se seguiu a morte de muitos judeus leais e finalmente a profanação do Templo em 167 AC. Então, Antíoco iniciou o uso do calendário Siro- Macedônio para substituir o calendário do Templo.”
Em Macabim Alef/1 Macabeus 1:44-45, lemos que Antíoco Epifânio não se agradava do serviço religioso judaico:
“Por intermédio de mensageiros, o rei enviou, a Yerushalayim e às cidades de Yehudá, cartas prescrevendo que aceitassem os costumes dos outros povos da terra, suspendessem os holocaustos, os sacrifícios e as libações no Templo, violassem os Shabatot e as festas.”
Já em Macabim Beit/2 Macabeus 6:6-7, encontramos um relato bastante curioso:
“Não se permitia mais a observância do Shabat, a celebração das antigas festas, nem mesmo confessa-se judeu. Em cada mês, no dia natalício do rei, realizava-se um sacrifício; os judeus eram odiosamente forçados a tomar parte no banquete ritual e, por ocasião das festas em honra de Dionísio, deviam forçosamente acompanhar o cortejo de Baco, coroados com hera.”

Aqui vemos que o principal motivo para mudança do calendário era a celebração do aniversário, ou melhor dizendo, “mensário”, de Antíoco Epifânio.
Sobre este fato, James VanderKam comenta em sua obra “Calendars in the Dead Sea Scrolls: Measuring Time”:
De interesse particular aqui é a menção do “aniversário” real. Esta prática que é mais do que atestada nas seitas reais helenistas ocorriam em uma data específica a cada mês – a data na qual o rei nascera – e presumivelmente servia uma função prática de encorajar a lealdade popular ao rei divino. Mas se o aniversário do rei deveria ser observado na data correta, era preciso seguir o calendário adequado. No caso do império selêucida, aquele calendário era o arranjo luni-solar. Verifica-se a partir deste versículo que os judeus foram obrigados a celebrar um feriado que era datado segundo o calendário selêucida.
A natureza religiosa do evento emerge da referência a participarem nos sacrifícios que eram realizados na ocasião. 1 Mac. 1:45 confirma que a política real envolvia profanar os Shabatot e festas, isto é, aparentemente aos judeus não era permitido celebrar seus próprios feriados, mas foram forçados a celebrar feriados selêucidas. Ou, como 2 Mac. 6:6 diz: ‘Não se permitia mais a observância do Shabat, a celebração das antigas festas’.
Que a celebração mensal do “aniversário” do rei era comemorada no Templo deriva de 1 Mac.. 1:59, que aparenta falar do mesmo evento mencionado em 2 Mac. 6:7. “E, no dia vinte e cinco do mês, sacrificavam no altar, que sobressaía ao altar do Templo”. O décimo quinto aparentemente era a data do aniversário real, e nele os sacrifícios eram apresentados no altar no Templo em Jerusalém. Isto é, o calendário selêucida agora regulava festas e sacrifícios no santuário do Senhor.

Na coletânea de livros da obra “Tempo Final”, comentamos a respeito do fato de que Antíoco Epifânio era visto como sombra profética da iniqüidade que haveria de vir sobre Israel. Vimos que, a exemplo do que ocorrerá no fim dos tempos, Antíoco Epifânio colocou sobre o Beit HaMikdash (Templo) uma abominação desoladora. Vimos que ele também tentou mudar/abolir a Torá.
Não é surpresa alguma que, tal qual o falso messias descrito em Dani’el 7:25, Antíoco Epifânio também mudou “os tempos do El-Eliyon.”

A Origem da Disputa
Como nosso objetivo aqui é simplesmente entender a disputa calêndrica, o que descreveremos a seguir acerca das acirradas disputas ocorridas entre as classes dominantes do povo de Israel será bastante abreviado, visto que o mais importante é apenas contextualizar a situação.
Em 164 AC, Yehudá Macabi se levantou contra o império selêucida (greco-sírio) e conseguiu a independência de Israel. Em tese, isso significaria que o serviço a YHWH no Beit HaMikdash (Templo) voltaria normalmente a ser praticado, sem qualquer controvérsia, até os tempos da destruição de Yerushalayim (Jerusalém), certo?
Infelizmente, não foi bem assim. Kenneth F. Doig (ibid) assim narra os eventos decorridos:
O trauma das perseguições judaicas e a “abominação desoladora” no Templo fez com que os judeus novamente examinassem suas crenças e práticas. Onde é que haviam errado para trazer a ira do Eterno sobre eles? O debate religioso dividiu os judeus. Logo após esses eventos, Josefo relata que havia três seitas dentre os judeus, com diferentes opiniões acerca da ação humana. (Antiguidades 13:5:9). A profanação síria do Templo cristalizou as três seitas naquele tempo.

De fato, após a morte dos primeiros líderes da revolta dos Macabeus, cresceu o interesse entre diferentes segmentos judaicos em dominarem a vida político-religiosa do povo. Como já vimos anteriormente, as três correntes judaicas principais da época eram os essênios, antigos sacerdotes zadokitas que haviam sido exilados durante a dominação selêucida; os saduceus, sacerdotes hasmoneus que tentaram se estabelecer no poder, alegando ascendência zadokita, e os fariseus, movimento mais laico de rabinos e mestres que tinha forte apelo entre a população, desde que as sinagogas se estabeleceram na primeira diáspora babilônia.
À época, o que os fariseus fizeram não é muito diferente do que, muitos séculos depois, passaram a acusar os judeus reformistas. O movimento da reforma judaica é criticado por ortodoxos por ser uma tentativa de tornar o Judaísmo menos diferente das culturas ocidentais modernas, o que teria, entre outros motivos, a missão de suavizar o crescente anti-semitismo e abandono da identidade judaica. De volta à época que emergiu logo após a revolta dos Macabeus, os fariseus propuseram que a dificuldade poderia ser amenizada com o resgate de elementos da cultura siríaco-babilônia, como forma de suavizar as diferenças.
Uma dessas formas era justamente o uso do calendário babilônio, que era exatamente a base do calendário babilônio, que era praticamente idêntico ao calendário selêucida instituído por Antíoco Epifânio. Sobre isso, Kenneth F. Doig (ibid) narra:
O calendário siromacedônio era supostamente equivalente ao calendário babilônio desde o tempo de Alexandre até o primeiro século. A seqüência de moedas de 15/16 DC da Selêucia no Tigre se encaixa com a correlação anterior derivada de Ptolomeu… As moedas são datadas com o mês e o ano do reinado de Artabano II e dos anos 326 e 327 da Era Selêucida… As moedas demonstram que em 15 DC, Atermisios era igual a Nissanu, dos babilônios.

Essa mudança pode parecer sem sentido em nossa cultura, porém era absolutamente crucial na época. Afinal, a religião era o principal elemento da identidade de um povo, e um calendário de eventos religiosos governava a religião. Se o calendário fosse semelhante, haveria menos razão para uma intolerância à religião do povo dominado, por parte de seu dominador. E aquele calendário era adotado em boa parte do mundo conhecido.
Para justificar suas práticas, introduzir novos elementos sincréticos, e assegurar o seu calendário, os fariseus se utilizaram da suposta Torá Oral (para maiores informações sobre esse tema, vide nossa palestra sobre o NT e a Lei).
Mikhael Bauer, em seu artigo “The Jubilee Calendar”, assim comenta a posição dos fariseus:
“Aparentemente, a justificativa REAL da inspiração da Torá Oral era a de que ela ensinava o calendário solar-lunar [N. do T: ie. o calendário fariseu]. Aparentemente, a justificativa REAL para o calendário lunar-solar é o fato dele ser definido na Torá Oral. Quando essas duas justificativas são tomadas juntas, elas não apresentam muita segurança em qualquer uma.”

Evidentemente, a proposta foi tomada por saduceus e essênios como uma verdadeira abominação. O que se sucedeu foi uma alternância do calendário à época do Segundo Beit HaMikdash (Templo) devida exatamente à alternância entre fariseus e saduceus no poder.

Entre Fariseus e Saduceus
Durante o período hasmoneu, os essênios se distanciaram da vida político-religiosa ligada ao Beit HaMikdash (Templo), após terem sido banidos do poder. Segundo relata Josefo, os essênios gozavam de acesso ao Beit HaMikdash, mas realizavam seus rituais à parte dos demais, alguns optando inclusive por deixar completamente o convívio do Beit HaMikdash.
Dessa forma, o poder se concentrou entre as duas facções mais politizadas: os saduceus e os fariseus, que alternavam no poder. Os saduceus representando a aristocracia dos sacerdotes hasmoneus, e os fariseus representando um movimento de classe mais popular.
O controle da vida religiosa no Beit HaMikdash (Templo) alternava entre momentos de predominância entre ambas as partes, e de equilíbrio entre elas.

Por exemplo, durante o período de Alexandre Janeu (governante hasmoneu), os fariseus foram brutalmente perseguidos, e quase levados à total extinção.
Naquela época, prevalecia sobre o governo do Beit HaMikdash o entendimento dos saduceus.
Já na época da rainha Salomé Alexandra, os fariseus passaram de classe perseguida a classe dominante. A rixa entre as duas facções político-religiosas permaneceu acirrada até que Roma dominou a região, e estabeleceu o equilíbrio de forças.

Durante a época da dominação romana, saduceus e fariseus gozavam de uma posição moderadamente equilibrada, embora na realidade, ambos fossem forçados a servir aos interesses romanos.
Fato é que no primeiro século, na época em que Yeshua viveu, havia uma coexistência entre ambas as facções, e os historiadores sugerem que ambos os calendários, o calendário bíblico original, e o novo calendário proposto pelos fariseus, coexistisse de alguma forma. Há três possibilidades levantadas pelos historiadores:
A de que ambos os calendários estivessem vigentes no Beit HaMikdash (Templo) durante a época, dividindo o povo segundo sua preferência;
A de que o calendário dependesse da parte que, no momento, detivesse alguma vantagem política (como, por exemplo, o Cohen HaGadol/sumo sacerdote da ocasião);
A de que os saduceus detivessem o controle sobre o calendário do Beit HaMikdash (Templo), porém aos fariseus também fosse permitido que mantivessem suas festividades.
Das três hipóteses, a primeira e a segunda são consideradas as mais prováveis, e é possível que houvesse algum tipo de interseção entre elas.
Provavelmente, saduceus e fariseus teriam algum tipo de acordo para poderem manter suas práticas religiosas.

Evidências Históricas
De nada adianta explicitar a história acima se não houver fontes históricas que confirmam a existência de dois calendários à época do Segundo Beit HaMikdash (Templo). Vamos a elas, portanto:

1) O Testemunho da Mishná
O primeiro e mais explícito testemunho da controvérsia calêndrica à época do Segundo Beit HaMikdash (Templo) vem da próprio Mishná.
A Mishná relata um conflito grande entre os fariseus e os boetusianos (nome dado aos saduceus devido a Boetus, um dos fundadores da seita) acerca das datas de Yom HaBikurim (Primícias) e Shavu’ot (Pentecostes).
E narra também que supostamente os saduceus faziam de tudo para atrapalhar a proclamação da “lua nova”. Evidentemente que, a partir daí, é inevitável concluir que fariseus e saduceus seguiam calendários diferentes.
Sobre essa controvérsia, a Enciclopédia Judaica narra:
A Mishná, bem como a Baraita, menciona os boetusianos se opondo aos fariseus e dizendo que o mover do molho na época de Pessach não deveria ser oferecido no segundo dia da festa, mas no dia depois do Shabat de fato da festa da semana e, semelhantemente, que Shavuot, que vem sete semanas e um dia depois, deveria ser celebrada após o Shabat (Men. 10:3; compare também com Hag. 2:4). Em outra passagem, é narrado que os boetusianos contratavam falsas testemunhas para desviar os fariseus em seus cálculos da lua nova (Tosef., R. H. 1:15; Bab. ib. 22b; Yer. ib. 2:57d, abaixo, compare Geiger, ‘Urschrift’, pp. 137, 138).

O rabino Yissocher Frand, em seu artigo “De Volta aos Costumes dos Fariseus e dos Saduceus”, confirma a tese de Bauer de que a origem dessa diferença estava baseada numa “Torá Oral” que supostamente regularia o calendário dos fariseus. Sobre o conflito entre ambos, ele relata:
A interpretação rabínica, baseada na tradição da Lei Oral, era de que a ‘manhã após o dia de repouso’ significava o dia após Pessach, a saber o 16º de Nissan. É baseado nessa tradição que nossa prática é de começar a contagem do o Omer no segundo dia de Pessach.
Os tsedukim [saduceus] eram literalistas que não acreditavam na Lei Oral, e interpretavam ‘manhã após o Shabat’ como significando domingo. Assim, o domingo de Pessach seria o primeiro dia da contagem do Omer, e a festa de Shavuot sempre seria no domingo, sete semanas depois.

Na realidade, o rabino Frand erra apenas em um detalhe: O Talmud não nos diz após qual Shabat os saduceus (assim como os essênios) contavam o Omer. A idéia de que seria o Shabat dentro de Chag HaMatsot (da festa de pães ázimos) já é uma interpretação que se faz dessa narrativa, e não condiz com a realidade dos fatos. Veremos mais adiante que os achados do Mar Morto revelam (e de fato a Torá dá a entender) que a contagem do Omer por parte dos saduceus e dos essênios era feita a partir do Shabat imediatamente após Chag HaMatsot.
Mas, o que importa aqui é enfatizar o ponto de conflito calêndrico entre fariseus e saduceus à época do Segundo Beit HaMikdash (Templo).

2) O Testemunho dos Manuscritos do Mar Morto
Existe uma passagem extremamente interessante no comentário essênio do Sefer Havakuk (Habacuque) que também nos revela o quão sangrento foi o conflito calêndrico:
Ai daquele que dá de beber ao seu companheiro! Ai de ti, que adiciona à bebida o teu furor, e o embebedas para ver a sua nudez! [Hab. 2:15]
Isto se refere ao Cohen HaRasha [Sacerdote Maligno] que perseguiu o Moreh Tsedek [Instrutor da Justiça] para destruí-lo no calor de sua ira no seu lugar de exílio. No tempo apontado para o repouso do Yom Kipur, ele lhes apareceu para lhes destruir, e trazê-los à ruína no dia de jejum, no Shabat dedicado ao seu descanso.

Aqui temos uma evidência interessante. Um Cohen HaGadol (sumo sacerdote) ilegítimo teria perseguido os essênios durante o Yom Kipur.
Certamente que isso só seria possível se o Cohen HaGadol em questão seguisse o calendário farisaico/mishnáico, pois certamente não se envolveria em um ato de guerra civil como esse em um dia tão sagrado como o Yom Kipur!
VanderKam (ibid) comenta, acerca deste episódio (os comentários entre colchetes são esclarecimentos, e não fazem parte da citação:
O Instrutor teria advogado o calendário tradicional de 364-dias [N. do T: esse calendário será explicado mais adiante], o qual de fato demonstra ter um pedigree mais antigo, conforme demonstrado pelo Livro Astronômico [N. do T: um fragmento do Mar Morto]. Pode ser que um sacerdote conservador como o
Instrutor, uma vez que suas poderosas alegações acerca de si próprio e de sua posição [ie. de ser o sumo sacerdote legítimo] conforme expressadas nas Hodayot nos fazem entender que ele uma vez deteve um alto ranking, apesar de agora mantê-lo somente em sua comunidade, tentou reintroduzir o calendário de 364-dias no serviço do Templo depois que a ameaça selêucida imediata havia sido removida.

3) O Testemunho de Flavio Josefo
Embora não tão explícito quanto os demais, o testemunho de Flavio Josefo também não pode ser ignorado. Josefo relata acerca dos essênios:
Eles não oferecem sacrifícios [ie. através do Cohen HaGadol “oficial”] porque eles têm aspirações próprias que são mais puras; razão pela qual eles se excluem da ala comum do Templo, mas oferecem seus sacrifícios eles próprios.
Evidentemente que a oferta solitária dos essênios, isto é, fora do sistema religioso corrompido do Segundo Beit HaMikdash (Templo) tinha em conta não apenas a ilegitimidade do sacerdócio hasmoneu imposto, como também em razão das questões calêndricas.

Conclusão
Fica bem evidente, através de fatos históricos, que a época do Segundo Beit HaMikdash (Templo) em Israel viu 2 calendários competindo entre si, espelhando a disputa político-religiosa entre fariseus e saduceus. Isso demonstra que a questão é um pouco mais complexa, e não há como simplesmente olharmos para o NT e dizermos: “Yeshua seguia o calendário do Beit HaMikdash [Templo]” uma vez que não havia apenas um calendário em questão. É preciso irmos mais profundamente na análise de cada calendário, para determinarmos o calendário original.
Encerramos esta parte do estudo, que demonstrou a evolução histórica do calendário e as motivações políticas da controvérsia, com uma pequena tabela que demonstra um padrão de comportamento, e a fonte das alterações nos tempos apontados:
Mudança
Alterações
Personagem Catalisador
Império
Calendário Sacerdotal
Adoção do modelo do calendário babilônio
Antíoco Epifânio
Selêucida (Greco-Sírio)
Calendário Farisaico
Costumes inventados, transformados em leis


Calendário Farisaico
Inserção de novos elementos da astronomia babilônia
Constantino
Romano
Calendário de Hillel 2
Novos costumes transformados em leis






Evidentemente que toda história é passível de interpretação. Os fariseus até hoje mantêm que o seu calendário é o calendário bíblico original, e que foram os saduceus/essênios quem introduziram mudanças.
É por isso que, para confirmar os fatos aqui apresentados, faremos na próxima parte do nosso estudo uma análise dos requisitos bíblicos do calendário, bem como das origens de cada calendário.

A Verdadeira Origem da Kipá

A Verdadeira Origem da Kipá
Por Sha'ul Bentsion


I - Introdução

! A kipá, ou solidéu como é conhecida popularmente entre os não-judeus,
é hoje praticamente uma unanimidade no meio judaico. Poucos, todavia,
conhecem sua origem, ou já se indagaram se o seu uso reflete as práticas do
Judaísmo bíblico, ou dos israelitas da antiguidade.
" Os que defendem o uso da kipá entendem que o cobrir a cabeça indica
temor dos céus, e que essa prática teria embasamento nas Escrituras.
" Este estudo se propõe a investigar essas alegações, buscando a
verdadeira origem histórica do solidéu, e verificando o que dizem as Escrituras
a esse respeito.

II - A Origem Histórica do Solidéu

" Mesmo que objetivo desta seção seja uma investigação histórica, a Torá
nos dá um ponto de partida muito interessante ao afirmar:
“Não cortareis o cabelo em redondo, nem danificareis as extremidades da
barba pelos mortos; não ferireis a vossa carne; nem fareis marca nenhuma
sobre vós. Eu sou YHWH.” (Vayicrá/Levítico 19:27-28)
" Vale ressaltar ao leitor que o hebraico apresenta um texto corrido, e que
a pontuação e a divisão de versículos é algo introduzido pelas traduções.
" O texto acima fala de alguns rituais de luto que são proibidos pela Torá.
Dentre eles, destaca-se o ritual da tonsura, um ritual de raspagem dos cabelos,
deixando uma superfície calva no topo da cabeça, de modo que os cabelos
crescessem apenas como um halo redondo em torno da mesma.
" Esse tipo de ritual de luto era comum entre os antigos sumérios, e por
esta razão, os israelitas tiveram bastante contato com ele nos tempos antigos.
Sobre isso, Brian B. Schmidt, professor de bíblia hebraica e cultura semita da
Universidade de Michigan, afirma:
! “Laceração e tonsura são atestados como rituais de luto dentre diversos
povos do Oriente Médio. Alster nota que [os textos da]~Descida de Inanna ao
Mundo dos Mortos (versões suméria e acadiana), Gilgamesh, Enkidu e o
Mundo dos Mortos (versões suméria e acadiana) e o Épico de Gilgamesh
(acadiano) contêm reflexões mitológicas dos rituais de luto envolvendo autolacerações
e tonsura. Rowley [também] citou referências na literatura grega
clássica.” (Israel's Beneficient Dead, pg. 174)
" Por hora, será deixada de lado a referência aos gregos (que será
retomada mais adiante), e o foco será dado ao hábito que aparece na antiga
região da Mesopotâmia. A grande questão que fica é: Por que a Torá proibiria
esse rito de luto em particular? É importante ressaltar que a Torá não se
ocupava de condenar qualquer tipo de costume local, mas sim principalmente
aqueles que de alguma forma estavam ligados à idolatria.

II.1 - A Adoração a Shamash

" Na região da antiga Bavel (Babilônia), a tonsura não era apenas um rito
de luto, mas também um símbolo da devoção a Shamash, o deus-sol do antigo
panteão babilônio.
" O acadêmico James Hastings cita a tonsura como uma forma de rito
iniciático de dedicação dos sacerdócio aos deuses babilônios:
"As placas representam o rei Ur-Nina (Louvre)
como um portador de cesto, e também assentado,
mostram-no na companhia de seus oito filhos, os
quais, de pé perante eles, curvam suas cabeças em
sinal de respeito. Com a exceção do primeiro, todos
têm suas cabeças raspadas, e é possível que o
cabelo do mais velho tenha um tipo de tonsura. O
raspar a cabeça é considerado sinal de ranking
sacerdotal, e essas placas parecem provar que até
meras crianças eram iniciadas..." (Encyclopedia of
Religion and Ethics, parte 6)
" Acima, gravura da tábua babilônia de Ur-Lina, em exposição no museu
do Louvre. Conforme Hastings atesta, pode-se perceber a tonsura no filho mais
velho do rei. Sobre a tonsura sacerdotal, Hastings continua:
" "Existem muitas referências à
consagração sacerdotal, mas nada é tão
conhecido como as marcas distintas que
os sacerdotes portavam. As impressões
de selo [N. do T. as tábuas babilônias
eram impressas com selos cilíndricos em
argila] mostram queles frequentemente
se raspavam, e parece certo que isso
era parte do rito de consagração, que
era realizado pelo shui (Sum.) ou gallabu
(Sem.) Seu trabalho era provavelmente
realizado perante a estátua da divindade a quem o neófito era dedicado. A isto
aparentemente se sucedia o dar a tiara sacerdotal." (ibid, parte 19)
" É importante que o leitor compreenda que o significado do termo “tiara”
aqui usado é um “ornamento de cabeça.” Mas, como era o ornamento de
cabeça dos iniciados no sacerdócio babilônio, dentre os quais se destacava o
sacerdócio de Shamash?
" Diversas tábuas babilônias demonstram que ornamento de cabeça era
usado como símbolo de Shamash. A mais evidente dessas tábuas (acima) é
uma tábua do século 9 AC, que mostra o próprio deus-sol Shamash e seus
súditos. Pode-se observar que esse ornamento de Shamash tinha uma forma
semelhante a uma cuia, e cobria a cabeça exatamente onde a tonsura era
realizada. Abaixo, algumas outras tábuas:
" Esse tipo de ornamento dos sacerdotes de
Shamash também aparece em outras imagens, ornando
tanto homens, quanto mulheres, e até mesmo outras
divindades como Ishtar e Tamuz. Abaixo, algumas tábuas
da coleção de Ashurbanipal, em exposição no Museu
Britânico. São tábuas do século 7 AC, embora especulese
que sua origem possa estar por volta do século 17 AC.
" Embora não seja a única forma de cobertura de
cabeça a figurar nas tábuas babilônias, o disco-solar de
Shamash é sem sombra de dúvidas o mai s
predominante. Até mesmo outras divindades aparecem
trajando-o, demonstrando a grande importância que os
babilônios davam ao sol. Isso pode ser visto em imagens
como a do casamento de Ishtar e Tamuz, que é
representado na gravura arqueológica ao lado.

II.2 - De Shamash a Mitra

" Ao longo dos séculos, o panteão e a teologia babilônia evoluíram,
embora a devoção ao sol permanecesse uma de suas marcas mais
identificáveis. O
" Já próximo aos tempos de Yeshua, a religião dos Mistérios de Mitra (cuja
mitologia foi incorporada ao Zoroastrismo) era bastante popular na Babilônia, e
com o passar do tempo foi ganhando cada vez mais força. Mitra era uma
divindade solar, que acabou incorporando boa parte da devoção e das
características do antigo deus Shamash.
" Ao lado, pode-se ver a predominância
de Mitra em um mural do século 3 DC, o
mural da investidura do imperador Ardashir. À
esquerda, pode-se ver Mitra com seus
inconfundíveis raios solares, e o seu solidéu
(um dos dois chapéus utilizados no
Mitraismo.)
" A religião dos Mistérios de Mitra tornouse
bastante popular também em outras
culturas, tendo influenciado não apenas
gregos, como também romanos.
" Os seguidores de Mitra tinham como marca distinta os seus dois tipos
de cobertura de cabeça: o chapéu fírgio, e o solidéu.
" Sobre isso, em sua obra acerca das origens e do significado do solidéu,
o reverendo Antonio Hernandes nos relata:
! "… a igreja primitiva roubou muitos dos hábitos, vestimentas e costumes
mitraístas. Todos os mitraístas usavam um solidéu especial.
…todo mitraista que cometes pecado era condenado, entre outras coisas, a
usar um solidéu de pele de porco! Seu profeta, Mitra, usava um solidéu e um
chapéu pontudo supostamente de design fírgio, e era ele quem originalmente
mostrou todos os atributos do Cristo [romano]. Mas diferentemente do Cristo,
Mitra emergiu de uma rocha, completamente nu e belo, usando seu solidéu
orgulhosamente." (My Kingdom for a Crown: An Around-the-World History of
the Skullcap and its Modern Socio-Political Significance)
" Até hoje, os zoroastristas (também conhecidos como parsis), utilizam a
mesma cobertura de cabeça dos mistérios mitraístas, como pode ser visto em
algumas fotos abaixo:

II.3 - Da Babilônia à Grécia

" O culto ao deus-sol também também influenciou a cultura grega,
provavelmente trazido pelos fenícios, como visto na figura abaixo
representando a história de Cadmos, o fenício que supostamente teria fundado
a Grécia. O painel, do museu do Louvre, apresenta-o trajando solidéu.
" Semelhantemente, os deuses gregos também são frequentemente
representados usando solidéu, como abaixo nas esculturas gregas antigas de
Oceanus e Zeus:
" Abaixo, uma escultura de um dos Dioscuri, os filhos gêmeos de Zeus,
em uma praça em Turim, na Itália, e uma antiga gravura mostrando ambos os
Dioscuri, ambos usando solidéu.
" Até hoje, na Albânia, em região do antigo
império grego, pode-se ver o costume
remanescente. Ao lado, um senhor albanês trajando
o seu solidéu.
" Como já foi apresentado em diversos
materiais, e é amplamente de domínio público, a
Igreja Católica nos primeiros séculos de sua
existência incorporou uma série de práticas do culto
a Mitra, que havia ganho bastante popularidade no
império romano.

III.4 - Roma e a Tonsura Solar

" Parte desse rito incluía o antigo hábito das tonsuras, exatamente a
mesma prática proibida pela Torá, e que era realizada na Babilônia em conexão
com a adoração ao deus-sol.
" Sobre o rito da tonsura, a Enciclopédia Católica afirma:
“Um ritual sagrado instituído pela Igreja através do qual um cristão batizado e
crismado é recebido na ordem clériga através da raspagem de seu cabelo e do
investimento da túnica. A pessoa assim tonsurada torna-se participante dos
privilágios e obrigações comuns do estado clérigo e está preparada para a
recepção de ordens.” (Tonsure)
" A exemplo do que acontecia na antiga
Babilônia, a tonsura romana era coberta por um
solidéu. Sobre esse hábito, Hernandez escreve:
"Tonsura - O ato de raspar a cabeça para
representar o tomar votos ou ordens religiosas.
Praticada tanto pelos pagãos, quanto por budistas
e cristãos, a tonsura tonsura precisava de proteção
- uma das principais razões pelas quais o solidéu
passou a ser usado pelos clérigos religiosos em
todo o mundo." (My Kingdom for a Crown: An
Around-the-World History of the Skullcap and its Modern Socio-Political
Significance)
" Embora a tonsura tenha saído de moda na Igreja Católica, o uso do
solidéu permanece. Curiosamente, o termo “solidéu” deriva de “soli deo.”
" Hoje em dia, o Vaticano jura que “soli deu” significa “somente deus.”
Todavia, o termo “soli deo” no latim também pode significar “deus sol.” Apesar
dessa aparente ambiguidade, não há dúvidas quanto à origem real do termo,
por dois motivos.
" O primeiro, porque, como visto, a
prática do solidéu começou a se popularizar
através da religião dos mistérios de Mitra,
uma divindade solar.
" O segundo porque, contrariando as
explicações atuais do Vaticano, o famoso
mural de Mitra (vide foto acima) no Vaticano
traz a inscrição “Soli Invicto Deo” (deus sol
invencível). Portanto, pode-se perceber sem
qualquer sombra de dúvida que solidéu, ou
“soli deo”, significa literalmente “deus sol.”

III - Representações dos Antigos Israelitas

! Nos tempos bíblicos, os israelitas
comuns não tinham por hábito usarem
coberturas de cabeça. Abaixo, algumas
evidências arqueológicas comprovam isso.
" A primeira delas, um mural egípcio de
cerca do século 15 AC, mostra os hebreus
cativos trajando tsitsiyot (franjas). Não há
qualquer cobertura de cabeça.
"
" O mesmo pode-se observar do mural de
Senaqueribe, ao lado, de cerca do século 7 AC,
que ilustra os israelitas sendo levados para o
cativeiro assírio. As tábuas possuem alguns
detalhes próximos aos pés que podem representar
tsitsityot (franjas), mas novamente não há qualquer
cobertura de cabeça.
" E, por fim, há ainda uma imagem em que
Yehu, rei de Judá, se prostrando perante
Shelmanaser III, rei da Babilônia, de cerca do
século 9 AC.
"
" Esse mural, de origem babilônia, é curioso pois representa Yehu com
uma cobertura de cabeça. Todavia, seu acompanhante ao lado aparece sem tal
cobertura, o que reforça o indício de que nos tempos bíblicos, o costume de
cobrir a cabeça era apenas social.
" Mais adiante, serão abordados também os murais da sinagoga de Dura-
Europos, que indicam que o costume também não era comum mesmo no
século 3 DC.

IV - A Bíblia e o Cobrir a Cabeça

! Abaixo, apresenta-se uma lista dos termos bíblicos usados para
cobertura de cabeça. Será feita uma análise cuidadosa da etimologia e do
contexto de uso de cada termo:
IV.1 - Mitsnefet
!
" O termo vem da raíz "tsanaf", que significa "enrolar." Literalmente, um
turbante. Esse termo aparece nas Escrituras de forma exclusiva ao turbante do
cohen hagadol (sumo-sacerdote), que era feito de linho. Aparece
frequentemente como “mitra” nas traduções para o português, embora
“turbante” seja a leitura mais apropriada:
“Prenda-o na parte da frente do turbante [mitsnefet] com um cordão azul.”
(Shemot/Êxodo 28:37)
Outras passagens onde o termo aparece:
• Ex. 28:4,37,39; 29:6; 39:28,31
• Lv. 8:9; 16:4;
• Ez. 21:26;

IV.2 - Tsanif

" Esse termo vem da mesma raíz de mitsnefet. Literalmente, algo
"enrolado." No contexto em que é usado, trata-se de um adorno que indica
alguma riqueza ou status. Provavelmente, o uso de "tsanif" versus "mitsnefet" é
para diferenciar o traje típico do cohen hagadol dos demais turbantes.
Curiosamente, o termo sempre aparece em contextos figurativos:
“A retidão era a minha roupa; a justiça era o meu manto e o meu turbante
[tsanif].” (Iyov/Jó 29:14)
Outras passagens onde o termo aparece:
• Is. 3:23; 62:3;
• Zc. 3:5;
" Percebe-se que o uso desse termo é puramente cultural, e reflete
apenas um costume de pessoas de status no oriente médio.

IV.3 - Atará

" Literalmente, uma coroa. Era feita de metal (geralmente, ouro e pedras
preciosas), e é associada a reis e governantes. Quando aparece
figurativamente, refere-se à autoridade:
“A seguir tirou a coroa [atará] da cabeça do rei, uma coroa [atará] de ouro de
um talento; ornamentada com pedras preciosas. E ela foi colocada na cabeça
de David...” (Sh'muel Beit/2 Samuel 12:30)
Outras passagens onde o termo aparece:
• 2 Sm. 12:30;
• 1 Cr. 20:2;
• Es. 8:15;
• Jó 19:19; 31:36;
• Sl. 21:3;
• Pr. 4:9; 12:4; 14:24; 16:31; 17:6;
• Ct. 3:11;
• Is. 28:1,3,5; 62:3;
• Jr. 13:18;
• Lm. 5:16;
• Ez. 16:12; 21:26; 23:42;
" Outro uso puramente cultural, que reflete apenas um costume dos reis e
autoridades de usarem coroas.

IV.4 - Chevel

" Uma corda ou laço, mencionada duas vezes numa única passagem da
Bíblia como algo possivelmente amarrado ao lado da cabeça Aparentemente,
pelo contexto, era usado por pessoas humildes (ou que desejassem se
humilhar), e se assemelha ao que aparece em um mural egípcio que
representa os israelitas. Ao que tudo indica, provavelmente era usado para
amarrar os cabelos para o trabalho. Há ainda algumas traduções que
interpretam como colares.
“Então, lhe disseram os seus servos: Eis que temos ouvido que os reis da casa
de Israel são reis clementes; ponhamos, pois, panos de saco sobre os lombos
e cordas [chavalim] à roda da cabeça e saiamos ao rei de Israel; pode ser que
ele te poupe a vida. Então, se cingiram com pano de saco pelos lombos,
puseram cordas [chavalim] roda da cabeça,” (Melachim Alef/1 Reis 20:31-32)
" Mais uma vez, o uso é plenamente cultural.

IV.5 - Migba'ah


" O termo vem da mesma origem de "gavah" que significa "alto ou
projetivo." Não à toa, o termo "guivah" significa "morro ou montanha" e "gavia"
que significa "taça." A Enciclopédia Judaica define da seguinte forma:
! "O termo usado para denotar as mitras dos sacerdotes comuns
('migba'ot', derivado de 'guebia' = 'taça') sugere uma cobertura de formato
cônico, presa firmemente à cabeça."
" Em outras palavras, era uma espécie de turbante que era atado de
forma peculiar, formando uma espécie de um cone mais alto. Qual o provável
objetivo desse formato peculiar? Provavelmente, era destacar o cohen
(sacerdote) para que fosse facilmente visto em meio à multidão. Normalmente,
aparece nas traduções para o português como “tiaras”, embora o formato não
tenha nenhuma conexão com o que se entende modernamente por “tiara”:
“Também Moshe fez chegar os filhos de Aron, e vestiu-lhes as túnicas, e cingiuos
com o cinto, e atou-lhes os turbantes-cônicos [migba'ot], como YHWH lhe
ordenara.” (Vayicrá/Levítico 8:13)
Outras passagens onde o termo aparece:
• Ex. 28:40, 29:9, 39:28;
• Lv. 8:13;

IV.6 - Pe'er

" O termo tem a mesma raíz de tiferet, e significa literalmente "belo" ou
"beleza." Era usado para descrever basicamente um enfeite, adorno ou uma
peça bela. Em Yeshayahu (Isaías), aparece como adorno usado pelo noivo. Em
Yehezkel (Ezequiel), Elohim diz a ele para usar adornos, de modo a ocultar sua
tristeza. Ou seja, era um traje cujo o objetivo era mesmo enfeitar.
" É provável que nem todas as passagens onde o termo aparece refiramse
a peças específicas para a cabeça, pois há pelo menos uma ocorrência
(vide citação abaixo) onde a Bíblia se preocupa em explicar o tipo de adorno,
indicando que poderiam ser de diversas naturezas.
" Algumas traduções trazem o termo como “ornamento”, outras como
“turbante.” Porém, o termo não era usado apenas para turbantes, pois a Torá
diz:
“E o turbante [mitsnefet] de linho fino, e o ornamento das tiaras [pa'arei
hamigba'ot] de linho fino, e os calções de linho fino torcido”
(Shemot/Êxodo 39:28)
Outras passagens onde o termo aparece:
• Is. 3:20; 61:3,10;
• Ez. 24:17,23; 44:18

IV.7 - Charbela

" Esse termo aparece uma única vez nas Escrituras, na parte aramaica de
Dani'el. O termo aramaico “charbela” é de difícil tradução, pois, segundo a
concordância Strong, pode indicar “manto, túnica, turbante ou capacete.”
" A passagem em Dani'el não é suficientemente clara para sequer termos
certeza de que se trata de uma cobertura de cabeça. Todavia, o mais provável
é que “charbela” deva indicar uma espécie de pano, que provavelmente
também poderia ser atado como um turbante:
“E os três homens, vestidos com seus mantos, calções, turbantes [charbelot] e
outras roupas, foram amarrados e atirados na fornalha extraordinariamente
quente.” (Dani'el 3:21)
" A passagem refere-se aos três amigos de Dani'el, e apenas indica que
eles foram lançados na fornalha do jeito que estavam vestidos. Ou seja, é mais
uma referência cultural.
IV.8 - Análise das Escrituras
" Pode-se concluir algumas coisas interessantes analisando os termos
usados para coberturas de cabeça na Bíblia.
" A que mais chama a atenção é a ausência de qualquer elemento que
mesmo remotamente nos lembre a kipá.
" Nas Escrituras, à exceção da coroa, as coberturas de cabeça tinham
formato de turbante, eram feitas de tecidos finos (que, à época, custavam
pequenas fortunas), e usadas não pelo povo de um modo geral, mas por
pessoas de destaque. Eram um símbolo de status, e eram tidos como um
artigo de grande beleza.
" A própria Torá nos indica, ao usar o termo “pe'er” que os turbantes eram
adornos. Ou seja, eles foram introduzidos por Elohim no Mishcan (Tabernáculo)
por motivos relativamente simples de compreender.
" Os israelitas já estavam habituados a verem pessoas de status usarem
turbantes. Quando Elohim determina que os cohanim (sacerdotes) usem
turbantes de linho como peças de adorno, isto simbolizava não o “temor do
céu”, como alguns supõem por hábitos posteriores, mas sim, segundo as
próprias Escrituras, simbolizavam uma autoridade e um destaque perante o
povo.
" Não há nenhum exemplo de alguém do povo usando alguma peça de
cabeça por razão de temor a Elohim, ou adotar o hábito dos turbantes de linho
dos cohanim (sacerdotes.)
" Se alguém, todavia, entendesse que o fato de nós sermos considerados
cohanim (sacerdotes) em Yeshua indicaria que devêssemos usar algum tipo de
chapéu, teríamos aí dois problemas: O primeiro é que um cohen (sacerdote)
não usava qualquer chapéu, e sim um turbante de linho bastante específico. O
segundo é a total ausência de qualquer menção a isso, mesmo como costume,
na B'rit Chadashá (Segundo Testamento.)

IV.9 - Yeshua Usava Kipá?

" A B'rit Chadashá (Segundo Testamento) não traz nenhuma menção a
Yeshua ou seus talmidim (discípulos) usando qualquer tipo de cobertura de
cabeça, muito menos ainda por motivos religiosos. De fato, à época, nem
mesmo a seita dos p'rushim (fariseus) fazia tal uso.
" Mesmo por séculos depois de Yeshua, as coberturas de cabeça usadas
pelos israelitas (em sua maioria, turbantes) eram tidas unicamente como
elemento cultural. Não eram usadas unanimemente, eram partilhadas por
homens e mulheres, e não tinham qualquer conotação religiosa. Isso será visto
mais adiante.
" Sobre os tempos de Yeshua, o rabino Shmuel Safrai, professor emérito
de História Judaica do Período Talmúdico e Mishnaico, da Hebrew University,
afirma:
! "É certo que Yeshua, um judeu residindo na terra de Israel no primeiro
século, não usava uma kipá (solidéu). O costume de usar uma kipá surgiu na
Babilônia entre os séculos terceiro e quinto DC entre os residentes não judeus
- os residentes judeus da Babilônia ainda não haviam adoptado esse costume,
conforme as pinturas da [sinagoga] Dura-Europos mostram - e passaram de lá
para a comunidade judaica na Europa.
! Apesar dos sacerdotes usarem um
migba'at (uma cobertura de cabeça tipo um
turbante - Ex. 28:4, 40; Lv. 8:13), outros judeus
do período do Segundo Templo não usavam
uma cobertura de cabeça. Isto é confirmado
tanto pela l i teratura quanto por restos
arqueológicos do período. Por exemplo, as
gravuras no Arco de Tito em Roma, que
representam a procissão da vitória em Roma
logo em seguida à conquista de Jerusalém em
70 DC., mostram os judeus cativos de cabeças
descobertas. Semelhantemente, as pinturas da
sinagoga de meados do terceiro século DC
escavados em Dura-Europos representam todos
os homens judeus com as cabeças descobertas, exceto por Aarão o
sacerdote." (Did Jesus Wear a Kippah?)
" Ao acima, um dos painéis da Dura-Europos, representa a unção de
David. Todos os homens aparecem de cabeças descobertas.

IV.10 - O Encobrir/Ocultar a Cabeça


" As Escrituras trazem ainda mais um elemento importante que deve ser
analisado: !
“E seguiu David pela encosta do monte das Oliveiras, subindo e chorando, e
com a cabeça coberta [chafui]; e caminhava com os pés descalços; e todo o
povo que ia com ele cobria [chafu] cada um a sua cabeça, e subiam chorando
sem cessar.”
(Sh'muel Beit/2 Samuel 15:30)
" As palavras que aparecem acima traduzidas como as ações de cobrir
vêm da raiz chafá, que significa “cobrir” ou “ocultar.” Aqui há a idéia de que
David, provavelmente com a sua própria túnica, ocultou a sua cabeça.
" Alguns chegam a tentar apontar essa passagem como evidência de que
se deve orar com a cabeça coberta. Todavia, o que acontece aqui nessa
narrativa é algo bastante específico: David estava amargurado, e humilhado.
Ele sabia que, por conta de seu pecado, Avshalom (Absalão), seu próprio filho,
se voltou contra ele. Tanto que, logo em seguida, Hushai se encontra com ele,
com terra sobre a cabeça, e roupas rasgadas.
" Repare que a referência aqui não é a um uso de chapéu, mas sim o
ocultar a cabeça, em sinal de tristeza e humilhação. Pode-se ver isso com
bastante clareza em outros trechos das Escrituras:
“E os seus mais ilustres enviam os seus pequenos a buscar água; vão às
cisternas, e não acham água; voltam com os seus cântaros vazios;
envergonham-se e confundem-se, e cobrem [chafu] as suas cabeças. Por
causa da terra que se fendeu, porque não há chuva sobre a terra, os
lavradores se envergonham e cobrem [chafu] as suas cabeças.” (Yirmiyahu/
Jeremias 14:3-4)
" Yirmiyahu haNavi (o profeta Jeremias) deixa bem explícito que o
costume do “ocultar” a cabeça com pano ou túnica era um ato de humilhação.
Pode-se perceber que isso é bem diferente do uso do turbante, que era um
símbolo de status.
" Esse hábito, além de não ser um hábito religioso, também não era
hábito exclusivo dos israelitas, e sim um costume do oriente médio. Pode-se
perceber isso na narrativa de Hadassa (Ester), onde Haman também “oculta” a
cabeça pelo mesmo motivo:
“Depois disto Mordechai voltou para a porta do rei; porém Haman se retirou
correndo à sua casa, triste, e de cabeça coberta.” (Hadassa/Ester 6:12)
" Como visto, não havia entre os judeus o costume de “ocultar” a cabeça
com o talit, ou com algum tipo de túnica, simplesmente para orar
rotineiramente. O costume indicava, ao contrário, um sinal de tristeza, de luto
ou humilhação.
" Hoje em dia, todavia, esse costume existe, e é bastante difundido. Como
visto, tal costume não se origina nas Escrituras, nem nos tempos antigos. De
onde vem, então?

" Esse costume, como vimos, não é mencionado nas Escrituras. Também
não aparece na Mishná (século 2), nem tampouco no Talmud (séculos 3 a 6).
De onde, então, deriva? A origem desse hábito, que não condiz com a prática
bíblica, é incerta.
" Talvez a resposta esteja nos costumes romanos. Isso não seria de todo
surpreendente, tal o grau de assimilação de costumes pagãos por parte dos
p'rushim (fariseus). Porém, não se pode afirmar categoricamente que a origem
esteja aí. Apesar disso, certamente essa era a origem da problemática vivida
por Sha'ul (Paulo) em Corinto. Sendo assim, é importante conhecer esse
costume romano.
" Na adoração romana, o principal líder das orações tinha por hábito o
chamado capite velato, isto é, o cobrir a cabeça. Não em sinal de humilhação –
como era o costume bíblico – mas para realizar orações e oficiar o serviço
religioso; costume esse que pode ter dado origem ao hábito posterior do
chazan (o contudor das rezas) cobrir sua cabeça nas sinagogas farisaicas.
" Sobre tal costume, o historiador e professor de ética religiosa David W.J.
Gill afirma:
"Tal imagem não é apenas visual, mas é encontrada na Res
Gestae de Augusto, onde sua função como o pontifex
maximus é enfatizada. Essa adoção de uma função
sacerdotal foi adotada também por outros imperadores, e é
assim que Nero é representado em uma estátua
fragmentária em Corinto. Ele, semelhantemente, tem sua
cabeça parcialmente coberta pela toga.
Augusto claramente tem um papel específico em sua
estátua. Ele é visto quer presetes a fazer um sacrifício ou a
orar. Nem todos os presentes no sacrifício teriam que puxar
sua toga sobre sua cabeça. Essa característica do chamado
capite velato [cabeça coberta] era 'a marca iconográfica de
um sacrificante presidindo sobre um ritual especificamente romano.'"
(The Importance of Roman Portraiture for Head-Coverings in 1 Co. 11:2-16)
Acima, uma imagem de Augusto com “capite velato.”
Abaixo, um antigo mural representando um sacerdote romano vestido
com “capite velato” (cabeça encoberta) conduzindo um serviço religioso. Ao
lado desse, um chazan parush (condutor fariseu) da mesma forma. Por esta
razão, associada à inexistência do costume nos tempos bíblicos, supõe-se que
o costume romano possa ser a origem do costume farisaico.
" Como se sabe Biblicamente, os israelitas jamais cobririam (ocultariam)
suas cabeças de tal forma, exceto em momentos de profunda tristeza,
humilhação ou vergonha.
" Um forte indício de tal influência pode ser encontrado na Cabalá. Em
seu artigo “When is the tallit pulled over the head during prayer?” o rabino
Moshe Miller afirma:
! “É importante observar que, segundo a Cabalá, os doutores da Torá
puxam seus Talitot sobre suas cabeças, uma vez que o talit encobrindo a
cabeça alude à luz da Torá que envolve um doutor da Torá, enquanto as
pessoas leigas simplesmente colocam o talit sobre seus ombros, deixando a
cabeça descoberta.”
" Não só essa idéia de que o talit encobrindo a cabeça seja uma alusão à
luz da Torá contradiz completamente o contexto das Escrituras, que deixam
claro que o cobrir a cabeça com um manto era sinal de humilhação, como
ainda esse costume é idêntico ao costume do antigo clero do império romano.
Por esta razão, deve-se suspeitar desse tipo de costume.

IV.11 - Sha'ul (Paulo) e Corinto

" O contraste entre o costume bíblico e o costume romano é
particularmente relevante para compreender o contexto de Curintayah Alef (1
Coríntios) 11:4, onde Sha'ul (Paulo) afirma:
“Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça oculta [m'kassai], desonra
a sua própria cabeça.”
" É importante o leitor compreender que a expressão aramaica “kassai”
significa literalmente algo que está “oculto/encoberto.” É análoga à raíz
hebraica “kassá”, que significa a mesma coisa.
" Um exemplo dessa raíz pode ser visto em Bereshit/Gênesis 24:65, com
Rikvah (Rebeca) quando se aproxima de Yitschak (Isaque):
“Então tomou ela o véu e cobriu-se. [tit'kas]”
"
" O que fez Rivkah (Rebeca) aqui? Tomou um véu e ocultou-se, como era
costume nupcial na região do oriente médio - aliás, costume que influencia até
as práticas ocidentais da atualidade.
" Pode-se ver ainda um outro uso do termo:
“Quando partir o arraial, Aron e seus filhos virão e tirarão o véu da tenda, e com
ele cobrirão [vechissu] a arca do testemunho;” (Bamidbar/Números 4:5)
" A arca era literalmente encoberta pelo véu, que a ocultava.
" Há muitos outros usos do termo, como por exemplo o das águas
cobrindo o mar (Is. 11:9), a glória de Elohim cobrindo o Sinai (Ex. 24:16),
Elohim cobrindo os olhos de pessoas (Is. 29:10), e assim por diante. O
importante aqui é percebermos que a raíz traz sempre essa idéia de um
encobrimento que oculta.
" Ou seja, pode-se entender que Sha'ul (Paulo) era contra o uso de
chapéus, turbantes, etc.? Pode-se, ainda, supor que essa passagem é
contrária ao uso da kipá?
" A resposta é não. O termo aqui não se aplica de forma alguma a
qualquer desses elementos, e sim ao ato de encobrir a cabeça, como quem
coloca um véu. Sequer faria sentido que Sha'ul (Paulo) considerasse esse
costume condenável visto que não apenas o costume do uso de turbantes
aparece nas Escrituras, como era comum também em meio a muitos povos da
região. Não faria sentido, portanto, o escândalo com tal coisa.
" Sha'ul (Paulo) também não poderia estar se referindo à kipá. Por mais
que essa última seja de origem pagã, esse costume não existia naqueles
tempos, conforme será abordado mais adiante.
" Para entender Sha'ul (Paulo), é simples: Basta relembrarmos o que a
Bíblia diz acerca desse ato. Como vimos, os homens encobriam suas cabeças
em sinal de luto, vergonha ou humilhação. Seria, portanto, um grande choque
para qualquer israelita da época ver pessoas rezando com as cabeças
encobertas. Imediatamente, um israelita pensaria que aquela congregação
estava clamando por ter cometido um grande pecado, ou estaria entristecida
com algo que lhe ocorrera. Vale relembrar que os israelitas dos tempos bíblicos
costumavam compreender que se uma catástrofe havia lhes afligido, era em
razão de terem dado brecha por razão do pecado.
" Corinto tinha um alto número de convertidos não-israelitas de origem, e
certamente tais pessoas teriam estado habituadas ao costume romano do
capite velato.
" Além de ser interpretado como um ato de humilhação, ainda poderia ser
confundido com o costume das mulheres, que usavam véu regularmente nos
serviços religiosos. Observando esse contexto, fica fácil compreender o que
Sha'ul (Paulo) queria dizer.
" A conclusão da instrução de Sha'ul (Paulo) é exatamente a mesma que
alguém teria de ler o Tanach (Primeiro Testamento): Não se deve cobrir/ocultar
a cabeça, exceto quando se está humilhado/entristecido.
" Isso inclui o uso do talit para cobrir a cabeça para fazer orações que,
como visto, é muito posterior aos tempos bíblicos, e pode até mesmo ter sua
origem no costume pagão de Roma.
" Se formos voltar às práticas bíblicas, o cobrir a cabeça (que poderia ser
com o talit, por exemplo), caberia em um momento de jejum ou arrependimento
de pecado, numa liturgia lamuriosa como no Yom Kipur (Dia da Expiação), ao
orar por razão de uma tragédia, em momento de luto, enfim, algo dentro desse
contexto, e não numa prática de oração e/ou cânticos de louvor a Elohim
convencionais, do dia-a-dia.
" Mesmo assim, é importante que o leitor compreenda que esse era um
costume bíblico, e não uma obrigação. A Bíblia jamais instrui que alguém que
esteja se sentido humilhado, triste ou envergonhado é obrigado a cobrir-se com
um manto. Tal prática, sendo assim, é totalmente opcional.

V - A Literatura Judaica e a Evolução do Costume

" E o que revela a literatura judaica sobre a questão do cobrir a cabeça?
Abaixo, uma investigação detalhada da Mishná e do Talmud.

V.1 - Na Mishná: Costume Cultural Unissex

" Na Mishná, que foi compilada no século 2 DC, não há qualquer registro
de cobertura de cabeça para o povo com fins religiosos. Pelo contrário, a
Mishná faz relatos de tais coisas como se fossem unicamente objetos de
vestimenta comum. Aliás, vestimenta essa que era utilizada por homens e
mulheres, indiscriminadamente:
! "As franjas de um lençol, um cachecol, um xale de cabeça, um chapéu
de feltro… as franjas de uma capa grossa, um véu, uma camisa, ou uma
capa… as franjas de um xale de cabeça de uma mulher idosa, ou os xales de
rosto dos árabes, as vestes de pelo de bode dos cilícios, ou de um cinto de
dinheiro, ou de um turbante ou de uma cortina são considerados conectivos
independentemente de seu comprimento." (m. Kelim 29:1)
" Isso confirma a nossa observação de que, pelo menos até o século 2
DC (e portanto igualmente nos tempos de Yeshua), não havia entre o povo
sequer o conhecimento do uso de cobertura de cabeça para fins religiosos,
nem mesmo entre os p'rushim (fariseus.)

V.2 - Costume Cultural, e Não-Unânime.

" Praticamente não há menção no Talmud, que foi compilado entre os
séculos 3 e 6 DC, do hábito de cobrir a cabeça, que não seja apenas um hábito
cultural. O Talmud chega a relatar, por exemplo, que os homens cobriam ou
não a cabeça, culturalmente:
! "Os homens às vezes cobrem suas cabeças, às vezes não; mas o
cabelo das mulheres está sempre coberto, e as crianças estão sempre com a
cabeça descoberta."
(b. Nedarim 30b)
" O hábito de usar turbantes ou xales enrolados sobre a cabeça eram tão
comuns, que o Talmud chega a questionar se o contato deles com coisas tidas
pelos p'rushim (fariseus) como sagradas seria um problema. Abaixo há dois
exemplos disso:
! "Um [Baraita] ensinou: Um homem pode atar tefilin usando seu
aparkesut [uma cobertura de cabeça que ia até o corpo] junto com seu
dinheiro, enquanto outro ensina: Ele não deve amarrá-los!" (b. Berachot 23b)
! "Eles são confiáveis [apenas] acerca de pequenos vasos de barro para
coisas sagradas… mesmo se a cobertura de cabeça [do oleiro] cair neles." (b.
Chaguigá 26a)
" Uma situação curiosa é o apelido de um dos sábios do Talmud, que é
chamado de “cabeça careca”, o que é mais um indício de que o hábito de
cobrir a cabeça não era unânime na época:
! "Não foi ensinado: Ben Azzai diz: Todos os sábios de Israel são, em
comparação comigo, finos como a casca do alho, exceto pelo cabeça
careca?" (b. Bechorot 58a)
V.3 - Em alguns casos: Hábito para Casados
" Um hábito cultural citado pelo Talmud era o de que homens casados
andassem com o que o rabino Dr. I. Epstein, editor da edição Soncino do
Talmud, explica (em nota de rodapé para b. Kidushin 29b como sendo uma
espécie de sudário. Ou seja, um pano que era amarrado à cabeça,
provavelmente semelhante a algum tipo de turbante.
" Mesmo esse hábito entre homens casados sequer era unânime,
conforme o próprio Talmud deixa claro. Vejamos as citações:
! "R. Hisda louvou R. Hamnuna perante R. Huna como um grande
homem. Ele lhe disse: 'Quando ele te visitar, traga-o a mim.' Quando ele
chegou, ele viu que ele não usava cobertura [de cabeça]. Por que você não
está usando cobertura de cabeça?' - perguntou ele. 'Porque eu não sou
casado', foi a resposta." (b. Kidushin 29b)
! "Rabina se sentava perante R. Jeremiah de Difti quando um certo
homem passou sem usar sua cobertura de cabeça. Que despudorado aquele
homem! - ele exclamou. Ele lhe disse: Talvez ele seja da cidade de Mehasia,
onde os acadêmicos são muito comuns." (b. Kidushin 33a)
" Percebe-se ainda, pelo relato acima, que o uso era apenas uma questão
de pudor, provavelmente influenciada por alguma cultura adjacente, uma vez
que nem a Bíblia, nem mesmo a Mishná, mencionam esse hábito em meio ao
povo de Israel. E, como pode ser visto, a revolta de R. Jeremiah, e o
comentário de Rabina, indicam que o hábito não era comum a todo o povo.

V.4 - O Costume do Luto

" O Talmud também reconhece o hábito, mencionado na Bíblia, de se
cobrir a cabeça (como quem se cobre com um manto) em caso de luto, e faz
menção ao mesmo costume:
! "Raba disse: Um pranteador pode andar em sua cobertura [rasgada]
dentro de casa [no Shabat.] Abaye encontrou R. Joseph entrando e saindo de
sua casa, com sua cabeça coberta com um pano [no Shabat.]."
(b. Mo'ed Katan 24a)
! "Quando o Templo foi destruído, acadêmicos e nobres se envergonharam
e cobriram suas cabeças." (b. Sotá 49a)
! "E Mordechai retornou ao portão do rei. R. Sheshet disse: Isto indica que
ele retornou ao seu pano de saco e jejum. E Haman se apressou para sua
casa, pranteando e cobrindo sua cabeça; pranteando por sua filha, e com sua
cabeça coberta em razão do que lhe acontecera." (b. Meguilá 16a)
" Como já vimos, o costume de cobrir a cabeça (como quem se cobre com
um manto) era também um elemento cultural, extensível a outros povos do
oriente médio.

V.5 Seriam os Cohanim a fonte?

" O Talmud traz algumas discussões e relatos sobre a cobertura de
cabeça dos cohanim (sacerdotes), porém são unicamente relatos descritivos,
sem nenhuma colocação de que o hábito deveria ser extendido ao povo, ou
mesmo a rabinos. Enfim, nada que sirva para elucidar o tema em voga.
" Mas, e quanto a outras menções de cobertura de cabeça para fins
religiosos?Existem apenas quatro citações de cobertura de cabeça, com
finalidade religioso.
" Duas delas, referem-se a um mesmo caso, o de R. Huna, que viveu no
século 3 DC, é o primeiro personagem que aparece no Talmud como sendo
alguém que cobria a cabeça regularmente, por motivos religiosos.
"R. Huna Ben R. Joshua não andava quatro cúbitos com a cabeça descoberta,
dizendo: A Shechiná está sobre a minha cabeça." (b. Kidushin 31a)
R. Huna esperava, inclusive, uma recompensa celestial para esse fato:
"R. Huna Ben R. Joshua disse: Que eu possa ser recompensado por nunca
andar quatro cúbitos com a cabeça descoberta." (b. Shabat 118b)
! Só que existe um detalhe importante sobre R. Huna. Ele era um cohen
(sacerdote), conforme o próprio Talmud afirma em b. Arachin 23a.
Considerando que nenhum outro acadêmico do Talmud aparece defendendo
cobertura da cabeça por razões religiosas, não é difícil perceber que R. Huna
se sentia obrigado a cobrir sua cabeça por ser um cohen (sacerdote). A Torá
determinava, conforme vimos, que os cohanim (sacerdotes) usassem turbantes
de linho. Todavia, a recomendação era unicamente para o serviço no Mikdash
(Santuário), e não algo para o dia-a-dia. Provavelmente, R. Huna levou essa
recomendação ao extremo.

V.6 - A Influência Pagã é Admitida

" As outras duas citações do Talmud que mencionam uso religioso de
cobertura de cabeça não são muito animadoras.
"
" A primeira delas se encontra em b. Shabat 156a. É importante que o
leitor compreenda que este folio do Talmud se inicia debatendo o costume
pagão de atribuir o destino aos astros. Depois de algumas discussões sobre
isso, o Talmud narra:
! "De R. Nachman b. Isaac também [aprendemos que] Israel está livre de
influência planetária. Pois a mãe de R. Nachman b. Isaac foi alertada por
astrólogos: Seu filho será um ladrão. [Então] ela não o deixava [ficar] com a
cabeça descoberta, dizendo-lhe: 'Cobre tua cabeça para que o temor dos céus
esteja sobre ti, e ora [por misericórdia.]' Agora, ele não sabia o porquê ela dizia
isso a ele. Um dia ele estava sentando e estudando sob uma palmeira; a
tentação o sobrepujou e ele subiu e mordeu um cacho com seus dentes."
(b. Shabat 156b)
" Vê-se aqui a influência da astrologia em meio ao povo. Essa influência já
foi discutida em alguns de nossos materiais, em especial em nosso primeiro
artigo sobre a origem pagã da Cabalá. Perceba que, ao ser alertada por
astrólogos, a mãe do rabino Nachman, por ato de superstição, cobre a cabeça
de seu filho, tentando assim protegê-lo da influência dos astros. Essa é
exatamente a razão pela qual os babilônios, que viviam em constante temor da
influência dos seus deuses-astros, cobriam suas cabeças! E justamente aqui,
vê-se que quando sua cobertura de cabeça caiu, ele então foi vencido pela
“influência dos astros” - algo que é completamente estranho às Escrituras, mas
que está profundamente arraigado na cultura babilônia.
" A outra praticamente chega a admitir o sincretismo religioso:
! "Trazei as vestimentas para os adoradores de Ba'al. O que é meltaha?
R. Abba b. Jacob disse em nome de R. Johanan: Algo que é delineado fino
pela unha (ie. linho fino). Quando R. Dimi veio, ele disse em nome de R.
Johanan: Bonias Ben Nonias enviou ao Rabi um sibni e um homes e salsela e
malmela. O sibni e homes [dobravam] ao tamanho de uma noz e meia, e a
salsela e a malmela ao tamanho de uma noz de pistache e meia. O que é
malmela? Algo que a unha mede como fino.” (b. Guitin 59a)
" Aqui o Talmud menciona que um rabino recebeu de presente de uma
pessoa uma vestimenta de um adorador de Ba'al!
" O mais interessante é o comentário do rabino Dr. I. Epstein, que aparece
ao rodapé desse texto na edição Soncino:
! “Coberturas de cabeça feitas de linho. [O Aruch lê: subni e homes subni.
Para subni cf.grego ** (sabanum) uma .cobertura de cabeça'; homes é derivado
do grego ** (metade). Segundo essa leitura, ele lhe enviou um sabanum de
tamanho cheio, e um sabanum de metade do tamanho. V. Krauss, TA I, p.
521.]”
" Veja que interessante: O texto fala de cobertura de cabeça, e usa o
termo “homes.” Esse termo vem do grego “hemi”, que não significa apenas
“metade”, e é usada em termos como “hemisfério.” Porém, a aplica à cobertura
de cabeça, além de associá-la aos adoradores de Ba'al, ou seja, a sacerdotes
pagãos.
" Isso se encaixa totalmente com a descrição da cobertura de cabeça
associada aos deuses gregos, que, como visto anteriormente, tem exatamente
o mesmo formato da kipá, isto é, um formato de um hemisfério, ou seja, de
metade de uma esfera!
" O leitor atento perceberá que, até o momento, não havia nenhuma
menção nem no Talmud nem na Mishná sobre qualquer tipo de cobertura de
cabeça semelhante à kipá. A única que existe, e que pode-se deduzir uma
semelhança estética com a kipá, é indicada pelo Talmud como pertinente a
sacerdotes pagãos!
" O costume de cobrir a cabeça de forma litúrgica, especialmente com
uma kipá, só começou a se expandir pelo Judaísmo por volta do final do século
7 ou início do século 8, mesma época o que marcou a expansão da Cabalá,
cuja origem, como vimos, também remonta aos mistérios de Mitra.
" A importação do costume da kipá a partir do paganismo é admitida
abertamente pelos p'rushim (fariseus). O rabino ortodoxo Rudolph Brash, em
sua obra “The Star of David”, afirma:
! "O paradoxo reside no fato de que essa prática (de cobrir a cabeça),
considerada fundamentalmente judaica e santa pela tradição antiga, na
realidade é pagã, e em termos de cronologia judaica, comparativamente
moderna. A verdade é que a prática de cobrir a cabeça foi copiada do seu
ambiente pelos judeus babilônios. Esses judeus babilônios levaram o seu
costume para os litorais da Espanha no século 8 AD, quando ele se tornou
firmemente estabelecido. Contudo, ao mesmo tempo em outros cantos da
Europa, era desconhecido. A história registra que, na mesma época, jovens
[judeus] alemães eram chamados para a leitura da Torá com a cabeça
descoberta. A cobertura da cabeça, apesar de naquele momento ser praticada
na Espanha e em Portugal, não tinha tomado raíz no leste ou norte da Europa.
Um famoso rabino do século dezesseis, o rabino Moses Isserles, cuja obra está
inclusa no livro 'O Código da Lei Judaica - o Shulchan Aruch', ensinava que 'a
cobertura da cabeça não poderia ser considerada um princípio religioso.' Ainda
mais recentemente, no século dezoito, a eminente autoridade judaica, rabino
Eliyah Gaon de Vilna, afirmava: 'De acordo com a Lei Judaica, é permitido
entrar numa sinagoga sem cobrir a cabeça.'”
" De fato, a história confirma que os primeiros a adotarem o costume da
kipá, no século 8, foram os judeus sefaradim, na Península Ibérica. Na época,
o costume era completamente estranho à prática dos judeus ashkenazim, que
continuavam a rezar com suas cabeças descobertas. Pouco a pouco, o
costume foi ganhando força no meio judaico, até se tornar bastante presente
em todas as comunidades.
" Contanto, o costume só ganhou status definitivo de obrigatoriedade
religiosa com o Shulchan Aruch, no século 16, quando, baseado na prática
que vimos de R. Huna no Talmud, afirmou que um homem não pode andar
mais do que quatro cúbitos com a cabeça descoberta (Orach Chayim 2:6.)

VI - Onde está a verdadeira identidade?

" É no mínimo bastante curioso observar que até mesmo em
congregações de seguidores de Yeshua que restauram as raízes judaicas da
fé, obriga-se os homens a fazerem uso da kipá, algo que não só apenas se
tornou obrigatório no meio judaico a partir do século 16, como ainda é de
origem pagã. Essa obrigação é anacrônica (nenhum judeu do primeiro século
usava tal coisa), abominável (por ter sua origem na prática babilônia), além de
ser uma exigência que a Bíblia jamais impôs a ninguém.
" É triste também observar que muitos usam a kipá, considerando-a um
símbolo de judaicidade - embora não seja, pois outros grupos religiosos com
costumes que também derivam do Mitraísmo também façam uso dela, tal qual
os padres romanos, e os zoroastristas.
" Em contrapartida, existe um número muito menor de pessoas que faz
uso regular dos tsitsiyot, as franjas que a Torá determina em Bamidbar
(Números) 15 e em Devarim (Deuteronômio) 22. Essas sim são um símbolo do
povo de Israel, determinado por Elohim.

VII - E agora, o que fazer?

" Talvez alguns leitores, após tomarem contato com este material, sintamse
em situação delicada, por terem que ir a um local que exija que a cabeça
esteja coberta. Se alguém, por exemplo, for convidado a assistir a um
casamento judaico, ou a falar sobre Yeshua e/ou a Torá em uma sinagoga que
tenha essa hábito. O que fazer, nesse caso?
" É importante que o leitor compreenda que, embora a kipá e o hábito de
cobrir a cabeça por “temor aos céus” sejam de origem pagã, as Escrituras não
são contra o uso de chapéus e outros adornos de cabeça. Sendo assim, a
recomendação que se dá é a de que a pessoa opte por algum outro tipo de
adorno de cabeça, tal como um chapéu convencional, uma boina ou boné,
enfim, algo que seja destituído de significação religiosa. Normalmente, esse
tipo de cobertura de cabeça é aceito mesmo nas sinagogas ortodoxas.
" Em sua prática pessoal, ou em sua comunidade, o israelita do caminho,
todavia, não deve utilizar cobertura de cabeça, nem cobrir sua cabeça com talit,
salvo em caso de luto, tristeza ou humilhação, como é o costume bíblico, e com
era o costume judaico nos tempos de Yeshua.

VIII - Conclusões

" Abaixo, um resumo do que foi abordado neste estudo:
. A kipá, ou solidéu, ão é um símbolo judaico, mas tem sido usada por
vários grupos étnicos de diversas religiões pagãs.
. A kipá, ou solidéu, não se originou em meio a Israel, e sim na cobertura
das tonsuras, na região da Mesopotâmia, em conexão à adoração ao
deus-sol.
. A kipá, ou solidéu, foi importada por diversas religiões, a partir de seu
contato com a cultura babilônia, especialmente com os mistérios do
Mitraísmo.
. Nos tempos bíblicos, os israelitas comuns não tinham por hábito cobrir a
cabeça para fins religiosos.
. A cobertura de cabeça que aparece nas Escrituras era fundamentalmente
um turbante.
. Os turbantes dos cohanim (sacerdotes) não indicavam temor aos céus, e
sim status social, como era de costume no oriente médio.
. Nem Yeshua, nem seus seguidores, usavam kipá ou qualquer cobertura
de cabeça para fins religiosos. Essa prática só surge no Judaísmo entre
os séculos 3 e 6.
. A prática só tomou volume no final do século 7, ou início do século 8,
entre os judeus sefaradim. Ainda assim, a prática era desconhecida pelos
ashkenazim.
. A Bíblia ressalta que o cobrir a cabeça com um manto era sinal de
vergonha, humilhação ou tristeza.
. O costume de cobrir-se com o talit (especialmente no caso do chazan)
para orações convencionais vai contra o costume bíblico, e era
desconhecido no Judaísmo antigo. Esse costume pode ter se originado
no costume romano, pois é a marca do antigo sacerdócio romano.
. Pelas razões acima citadas, além de não se usar kipá, deve-se também
evitar cobrir a cabeça com talit nas orações, salvo opcionalmente nos
casos de vergonha, humilhação ou tristeza, conforme o costume das
Escrituras.